MORNA - Música Cabo-verdiana

A morna é um género musical e de dança de Cabo Verde. Tradicionalmente tocada com instrumentos acústicos, a morna reflecte a realidade insular do povo de Cabo Verde, o romantismo intoxicante dos seus trovadores e o amor à terra (ter de partir e querer ficar).

Nos últimos anos, a morna foi levada a ser conhecida internacionalmente por vários artistas, nomeadamente em França e nos Estados Unidos, sendo a mais famosa Cesária Évora. O timbre da voz desta diva tem conquistado e alargado o público da morna, de Cabo Verde até o Olympia, passando pelo Carnegie Hall, pelo Hollywood Bowl e pelo Canecão.

Bana (Adriano Gonçalves)

A morna é o género musical que mais identifica o povo cabo-verdiano. Trata-se verdadeiramente de um símbolo nacional, do mesmo modo que o tango é para a Argentina, a rumba para Cuba, o fado para Portugal, etc. Alguns géneros musicais de Cabo Verde podem ser mais ou menos apreciados pelos naturais conforme a idade do ouvinte, a época, a ilha de origem, o gosto pessoal, mas a morna é o único género que consegue ser largamente transversal a todos os grupos etários, cronologicamente, geograficamente, etc.

É também o único género que sempre gozou de mais prestígio e de um carácter mais «nobre» em Cabo Verde

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Música Cabo-verdiana: o bilhete de identidade do arquipélago

Os repetidos sucessos além-fronteira de Cesária Évora e das suas mornas nos anos 90 permitiu a descoberta, pelo mundo, dos diversos estilos musicais de Cabo Verde.

Cesária Évora

O acontecimento passou praticamente despercebido na Praia. Um músico berbere, acompanhado por um técnico belga, percorreu a ilha de Santiago no inicio do ano durante duas semanas onde gravou os músicos representativos de todos os estilos musicais do arquipélago. Objectivo dessa viagem? Editar um disco misturando os ritmos cabo-verdianos à musica daquele grupo étnico da Argélia. Meses antes, um escritor francês também acompanhado por um técnico, concluíra um projecto de dez semanas em Cabo Verde onde gravou cerca de 60 artistas e grupos, com o intuito de editar quatro álbuns até ao ano 2000.

Dois projectos diferentes mas com uma mesma finalidade: a edição de pelo menos cinco álbuns. Uma prova do actual bom estado de saúde da musica cabo-verdiana embora, Cesária Évora, apesar da sua terceira nomeação, não tenha conquistado o "grammy" 1998 na categoria "world music", da academia norte-americana. Sim, pouco importa pois, além dos repetidos sucessos dos seus discos e espectáculos, a sua maior vitoria da cantora é sem duvida ter aberto o mundo à música cabo-verdiana.

Falar de Cize, a cantora outrora de pés descalços, significa evocar temas como "Sodade", "Papa Joaquim Paris" ou "Miss perfumado", mornas que a artista interpreta como ninguém ao ponto de muitos considerarem a artista como o rosto de um dos principais géneros musicais de Cabo Verde. Um dos mais antigos também, não obstante a falta de informações fidedignas quer em relação as datas quer em relação as origens. O fado, o lundum (ritmo nascido em Angola), a música argelina são tidos como os ritmos que deram origem a morna. Mas nada de concreto, embora é certo que a morna, a semelhança da maior parte das musicas de Cabo Verde, nasceu do casamento entre musicas da Europa e da África.

Ildo Lobo

As diversas fontes estimam que a morna nasceu no século 19 na ilha da Boavista -"Brada Maria", composta em 1870, é tida como uma das primeiras composições desse estilo. No inicio, essa musica não cantava a tristeza, a separação, a dor, o amor ou a morte, como acontece actualmente. Na Boavista, então um centro comercial importante, dominado pelas exportações de carne, cabras e couro, os músicos cantavam a vida, os abusos de um comerciante ou a atitude de uma esposa. A sua popularização muito deve a guitarra embora esse género tenha nascido nos pianos da burguesia local.

Graças às ligações marítimas, a morna acaba por tocar as outras ilhas e conhecer as primeiras evoluções na primeira metade do século 20. Na Brava, o poeta Eugénio Tavares, o romântico e observador da emigração dos homens para a América, começa a escrever sobre o seu mundo feito de dor, flores e mulheres. Em São Vicente, a evolução faz-se ao nível do ritmo com músicos como o compositor B.Leza e o guitarrista Luís Rendall.

Além dessas figuras, os outros nomes da morna são Jotamont, Lela d’Maninha, Olavo Bilac, o italiano Sérgio Frusoni, Teófilo Chantre, Paulino Vieira ou Beto, no que diz respeito aos compositores. Em relação aos cantores, destacam-se Adriano Gonçalves, mais conhecido por Bana, que se notabilizou no conjunto Voz de Cabo Verde, e Ildo Lobo, do grupo Os Tubarões. Em relação as mulheres, as mais conhecidas actualmente são Titina, Celina Pereira e Maria Alice -todas residentes em Portugal onde continuam a frequentar o mundo da musica.

Titina

Paralelamente à morna, o Barlavento deu um outro género bastante importante ao pais, a coladeira, nascida em São Vicente. A morna e a coladeira tem dois pontos em comum: a sua origem deveu-se bastante ao peso económico da ilha e partilharam textos com base em criticas sociais (a morna na sua primeira fase).

Segundo o compositor Jotamont, a coladeira nasceu da morna. A dada altura da festa, os casais, cansados de dançar mornas, pediam aos músicos que tocassem mais depressa, precisa. Assim nasceu esse ritmo, nos anos 20, embora a sua verdadeira fase de desenvolvimento tenha ocorrido entre 1940 e 1960. Nessa primeira metade do século 20, São Vicente e o seu Porto Grande ainda conseguiam atrair as companhias inglesas de carvão, que faziam a ligação entre a Europa e a América Latina, e os marinheiros brasileiros. "Os primeiros traziam dinheiro, os segundos faziam a festa", lembra um ancião. Desse ambiente, em que não faltava nada, a coladeira pôde nascer.

B.Leza

Por detrás desse estilo, estão os músicos Gregório Gonçalves - Ti Goy para o povo -, Djósa Marques, do grupo Ritmos de Cabo Verde, e António Tchitche. Porém, foi com o trompetista e clarinetista Luís Morais e os compositores Manuel D’Novas e Frank Cavaquim que a coladeira adopta a sua forma definitiva, isto é um estilo quente, inspirado da musica latino americana que estes três músicos conheceram aquando de uma passagem por Dacar, no Senegal.

Frank e Manuel darão a coladeira as suas mais lindas canções, o primeiro denunciando o comportamento das mulheres de São Vicente que gastam o dinheiro enviado pelo marido emigrado, enquanto o segundo apresenta-se como o advogado do sexo feminino.

Titina

No início dos anos 80, a coladeira entra numa fase de declínio que contrasta com o aparecimento, na cena nacional, do funaná. Até então, esse ritmo nascido do casamento entre uma "gaita" e um "ferrinho" era apenas tocado e dançado nos casamentos e festas no interior da ilha de Santiago (Sotavento). Tanto a igreja católica, por considera-la um produto africano, como a população da capital Praia, por estimar que era uma dança de camponeses, eram opostos a este ritmo.

Em 1978, um emigrante chamado Carlos Alberto Martins "Katchass" regressa a sua ilha e, com um grupo de amigos, cria o conjunto Bulimundo. O objectivo declarado é investigar os ritmos tradicionais da ilha e grava-los. Deste modo, Katchass escuta as figuras tradicionais dessa musica como Séma Lópi, Kodé di Dóna, Tchóta Suari e recolhe muitas gravações. Uma vez de regresso a cidade, Katchass e os seus companheiros do Bulimundo retomam essas musicas, não utilizando a gaita e o ferrinho, que são abandonados, mas introduzindo as violas eléctricas, a bateria e os teclados.

A cidade da Praia e o país inteiro encantam-se com essa música e não mais pararam de dança-la. Além do Bulimundo, os outros nomes do funaná são o conjunto Finaçon enquanto a nível individual as figuras são os irmãos Zézé e Zéca di nha Reinalda, interpretes e compositores. Hoje, o funaná é o ritmo mais popular entre os músicos da comunidade cabo-verdiana radicada em Portugal, Holanda ou Estados Unidos.

Nos últimos tempos, essa música vai sofrer uma pequena revolução com o grupo Ferro Gaita, um trio de jovens praienses que decide regressar aos dois instrumentos de origem, conservando apenas a viola baixo da revolução de Katchass. Uma aposta que dá os seus frutos pois o seu primeiro álbum -"Fundu Baxu", gravado em 1997- é um sucesso comercial. Outro resultado dessa aposta, muitos grupos decidem adoptar a fórmula Ferro Gaita.

O funaná não é o único ritmo de Santiago marcado pela influência africana. O batuque constitui a outra grande riqueza musical desta ilha e é também alvo de um grande interesse por parte dos produtores a procura de ritmos tradicionais. Deste modo, Antóni Denti d’Oru pode gravar o seu primeiro disco aos 70 anos passados. Nha Mita Pereira e provavelmente Nácia Gomi terão também esta oportunidade.

O batuque divide-se em duas partes: a sambuna, a parte dançante, e o finaçon, a componente poética. Parece um ritmo reservado às mulheres: elas cantam, elas batem em panos colocados entre as suas pernas, elas dançam. No final, cantadeira de finaçon entra em acção. Os textos são conselhos às pessoas, atitudes a ter na sociedade... Além de Denti d’Oru (o único homem nesse meio), Nácia Gomi e Nha Mita, as outras figuras são as falecidas Gida Mendi, Bibinha Kabral, Xinta Barros. No seio da nova geração, os compositores Orlando Pantera (que trabalho no projecto "Uma historia da duvida", de Clara Andermatt) e Carlos Alberto Sousa têm feito algum trabalho nesse domínio.

Fernando Quejas

Morna, coladeira, batuque e funaná... Os principais ritmos musicais do arquipélago. Existem outros géneros como as cantigas de trabalho nas ilhas agrícolas, as musicas religiosas como as devinas, as canções infantis da Boavista, mas estão em vias de desaparecer do panorama musical cabo-verdiano.

Felizmente, assiste-se a um desenvolvimento de alguns projectos musicais com o Vasco Martins, o grupo Simentera, um dos precursores do regresso aos instrumentos acústicos, Ramiro Mendes, cujas investigações permitiram um melhor conhecimento dos ritmos do Fogo. De igual modo, os cabo-verdianos têm vindo a investir no domínio musical e o primeiro estúdio, embora modesto, iniciou as primeiras gravações na Praia. Já vai longe o tempo em que a única saída era o estrangeiro muito embora os procedimentos técnicos mais avançados continuarão a ser feitos em Lisboa, Paris ou Boston. Finalmente, os músicos cabo-verdianos começaram a ganhar algum dinheiro com a sua arte. As entrevistas, os espectáculos... longe vai o tempo em que bastava um copo de grogue para agradecer o músico pela sua actuação.

Vladimir Monteiro do Música e Cabo-verdianos em Lisboa

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